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	<title>Cola-fina &#187; antoninhojr</title>
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	<description>Um aprendiz de campeiro</description>
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		<title>Curando bicheira</title>
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		<pubDate>Tue, 02 Feb 2010 19:42:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>antoninhojr</dc:creator>
				<category><![CDATA[Campereadas]]></category>
		<category><![CDATA[Lida]]></category>

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		<description><![CDATA[Os gaúchos da Serra adoram o verão. Converse com gente de São Chico, Canela, Jaquirana, Cambará, Bom Jesus e arredores, estes lugares que a geada castiga durante o inverno, e logo concluirá que não é simplesmente o clima praiano que alegra a indiada.
Acontece que, a partir de setembro, o chamado &#8220;princípio do verão&#8221;, o estado [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div><span style="font-size: x-small;">Os gaúchos da Serra adoram o verão. Converse com gente de São Chico, Canela, Jaquirana, Cambará, Bom Jesus e arredores, estes lugares que a geada castiga durante o inverno, e logo concluirá que não é simplesmente o clima praiano que alegra a indiada.</span></div>
<p><span style="font-size: x-small;">Acontece que, a partir de setembro, o chamado &#8220;princípio do verão&#8221;, o estado da criação melhora paulatinamente, isso até mês de abril, quase meados de maio, quando as vacas atingem o ápice da engorda. Eis aí o motivo pelo qual o aparte das vacas de cria ocorre em maio, uma vez que a partir daí a invernia castiga a macega e, consequentemente, a tropa inteira. Obviamente, nenhum gaudério gosta de ver gado magro, ainda que faça parte da lida.</p>
<p>Engana-se, porém, quem pensa que no verão não há serviço. A lida muda, mas persiste sempre, sem parar. É tempo de amansar a terneirada xucra, vacinação, banhar contra carrapatos e outras pragas, observar se o touro tá trabalhando conforme o esperado, repontar o gado para a lavoura, a fim de produzir adubo para plantar o pasto no inverno, essas coisas.</p>
<p>Dentro desse contexto, traz o calor consigo as imundícias: os já citados carrapatos, bernes, varejas e, consequentemente, as miíases, popularmente conhecidas por bicheiras. Não há verão sem rês bichada, isso é fato. De umbigo de terneiro novo a ferida de berne, passando por aspa quebrada, arranhão de cerca, tudo bicha. Deu mole pra mosca, ela senta e faz o serviço.</p>
<p>E foi campereando para o meu avô que, semana passada, achei um terneiro bichado no encontro da paleta. Confesso que, após alguns anos de lida, virei especialista em observar o sangue que escorre errado na rês. É raro deixar até a menor ferida passar despercebida. Ensinamentos do João Maria – meu velho avô &#8211; naturalmente.</p>
<p> </p>
<p><em>Pacholeava a quebrada, a passito,</em></p>
<p><em>Levando o sal na garupa,</em></p>
<p><em>Que me agrada camperear solito,</em></p>
<p><em>Assoviando uma marca, sem culpa.</em></p>
<p><em> </em></p>
<p><em>Aproximar da manada, contar o gado,</em></p>
<p><em>Admirar o estado do lote,</em></p>
<p><em>Que o verão está do agrado</em></p>
<p><em>E enche os olhos ao mexer pro reponte.</em></p>
<p><em> </em></p>
<p>Até que foi fácil. De pêlo fumaço, puxando a branco, não estava difícil de perceber a sangueira da ferida. Felizmente, um bicho flôr de especial na cruza, filho de uma vaca barrosa, de segunda cria, boa de produção. Repontei o lote para o lado do cocho, já com a idéia fixa de levar os dois, vaca e terneiro pra casa a fim de curar a dita bicheira.</p>
<p>Gado costeado é outra coisa, vale mesmo à pena. Há quem prefira um pouco de xucrismo, mas a minha lida passa pela mansidão, sem alarde. Encostei as vacas, apeei, larguei o sal no cocho e tornei a montar. Enquanto as primeiras lambiam a venta, apartei a barrosa com o terneiro e fiz alinhar para o lado de casa.</p>
<p> </p>
<p><em>Volta e meia, sempre acontece,</em></p>
<p><em>Numa tarde domingueira,</em></p>
<p><em>Campereando, aparece,</em></p>
<p><em>Aqui ou ali, uma bicheira.</em></p>
<p><em> </em></p>
<p><em>Não há motivo pra susto,</em></p>
<p><em>É o trabalho da mosca no verão,</em></p>
<p><em>Se o estado do bicho é robusto</em></p>
<p><em>Basta encostar pro mangueirão.</em></p>
<p><em> </em></p>
<p>Normalmente, quando reunidas, as vacas teimam até alinhar. Dispara pra um lado, teima pro outro, é natural que o animal criado em manada não queira desgarrar-se do lote, certeza de proteção ao menor sinal de perigo. No entanto, o costume da lida traz a mansidão já citada, e a vaca velha desceu a galope pro lado da rede com o terneiro logo atrás, manquejando no lado da bicheira.</p>
<p>Foi muito bem até perto de uma lagoa, quando resolveu voltar. Não sei se esqueceu a bolsa, o celular ou a chave de casa, mas o fato é que a barrosa deu a volta na lagoa e desembestou pro lado do cocho outra vez, estando a cinquenta metros da saída da invernada. Nesse momento, olhei para meus pés numa fração de segundo e percebi que calçava tamancos. Devido ao calor, optei por deixar as botas em casa e, consequentemente, as esporas.</p>
<p> </p>
<p><em>Havia um terneiro fumaço</em></p>
<p><em>Sangrando à volta da paleta</em></p>
<p><em>Destes que não conhece o laço</em></p>
<p><em>Mas aprende na força da roseta.</em></p>
<p><em> </em></p>
<p><em>E a mãe, uma aspuda barrosa,</em></p>
<p><em>Quis remanchar do carreiro</em></p>
<p><em>Correu de volta, teimosa,</em></p>
<p><em>Seguida pelo terneiro.</em></p>
<p><em> </em></p>
<p>Mesmo sem aparatos, carquei a égua Ruana de um só cutuco em cima da rês, que ventena comigo não tem muita chance. A vaca velha era mansa, mas sabia correr! Foi só ao estalo do relho e à base de grito que ataquei do lado de um banhado, trancando a passagem e iniciando a perseguição.</p>
<p>O brabo é que, no caso de vaca de cria, corre a mãe pra um lado e o filho pro outro. Essa é a hora em que o taura tem duas escolhas: ou se resigna e deixa voltar pro lote, ou se indigna e divide o matungo em dois, dê-lhe bufo, dê-lhe laço, fazendo brotar o suor, mas efetivando o aparte.</p>
<p> </p>
<p><em>É na firmeza do casco</em></p>
<p><em>Pisando firme a macega</em></p>
<p><em>Que o boi renega o pasto</em></p>
<p><em>E de vereda se entrega</em></p>
<p><em> </em></p>
<p><em>No estalido do relho</em></p>
<p><em>Virou-se rumo à mangueira</em></p>
<p><em>Amadrinhando parelho</em></p>
<p><em>Pra curar a tal bicheira</em></p>
<p><em> </em></p>
<p>Vencida a carreira, já brotando o suor no pescoço, retomei o trote sereno levando por diante os danados. Chegando na mangueira, o ritual é simples e sistemático: derruba, passa a corda nas patas e imobiliza a criação, de modo que o curativo fique a preceito.</p>
<p>Diria, aliás, que a riqueza da lida de campo é justamente a rusticidade do manejo. Cheiro de campo, de pêlo e bufo de ventana, confundindo o gaúcho com o cavalo, sem saber direito quem é quem na figura centaura que sobe e desce coxilhas cuidando o gado como tem que ser.</p>
<p> </p>
<p><em>Bufou, laçado ao pescoço</em></p>
<p><em>A corda esticada no chão</em></p>
<p><em>Curava, sem alvoroço,</em></p>
<p><em>Bem conforme a tradição</em></p>
<p><em> </em></p>
<p><em>No largar, ainda tonto</em></p>
<p><em>Saiu procurando o teto</em></p>
<p><em>Pisando firme, mas pronto</em></p>
<p><em>Jogando longe o graveto</em></p>
<p> </p>
<p><em>Pra quem conhece o verão</em></p>
<p><em>Se é do campo, não se apura,</em></p>
<p><em>Pois, da macega ao galpão,</em></p>
<p><em>Conhece os caminhos da cura</em></p>
<p> </p>
<p></span></p>
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