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Os gaúchos da Serra adoram o verão. Converse com gente de São Chico, Canela, Jaquirana, Cambará, Bom Jesus e arredores, estes lugares que a geada castiga durante o inverno, e logo concluirá que não é simplesmente o clima praiano que alegra a indiada.

Acontece que, a partir de setembro, o chamado “princípio do verão”, o estado da criação melhora paulatinamente, isso até mês de abril, quase meados de maio, quando as vacas atingem o ápice da engorda. Eis aí o motivo pelo qual o aparte das vacas de cria ocorre em maio, uma vez que a partir daí a invernia castiga a macega e, consequentemente, a tropa inteira. Obviamente, nenhum gaudério gosta de ver gado magro, ainda que faça parte da lida.

Engana-se, porém, quem pensa que no verão não há serviço. A lida muda, mas persiste sempre, sem parar. É tempo de amansar a terneirada xucra, vacinação, banhar contra carrapatos e outras pragas, observar se o touro tá trabalhando conforme o esperado, repontar o gado para a lavoura, a fim de produzir adubo para plantar o pasto no inverno, essas coisas.

Dentro desse contexto, traz o calor consigo as imundícias: os já citados carrapatos, bernes, varejas e, consequentemente, as miíases, popularmente conhecidas por bicheiras. Não há verão sem rês bichada, isso é fato. De umbigo de terneiro novo a ferida de berne, passando por aspa quebrada, arranhão de cerca, tudo bicha. Deu mole pra mosca, ela senta e faz o serviço.

E foi campereando para o meu avô que, semana passada, achei um terneiro bichado no encontro da paleta. Confesso que, após alguns anos de lida, virei especialista em observar o sangue que escorre errado na rês. É raro deixar até a menor ferida passar despercebida. Ensinamentos do João Maria – meu velho avô – naturalmente.

 

Pacholeava a quebrada, a passito,

Levando o sal na garupa,

Que me agrada camperear solito,

Assoviando uma marca, sem culpa.

 

Aproximar da manada, contar o gado,

Admirar o estado do lote,

Que o verão está do agrado

E enche os olhos ao mexer pro reponte.

 

Até que foi fácil. De pêlo fumaço, puxando a branco, não estava difícil de perceber a sangueira da ferida. Felizmente, um bicho flôr de especial na cruza, filho de uma vaca barrosa, de segunda cria, boa de produção. Repontei o lote para o lado do cocho, já com a idéia fixa de levar os dois, vaca e terneiro pra casa a fim de curar a dita bicheira.

Gado costeado é outra coisa, vale mesmo à pena. Há quem prefira um pouco de xucrismo, mas a minha lida passa pela mansidão, sem alarde. Encostei as vacas, apeei, larguei o sal no cocho e tornei a montar. Enquanto as primeiras lambiam a venta, apartei a barrosa com o terneiro e fiz alinhar para o lado de casa.

 

Volta e meia, sempre acontece,

Numa tarde domingueira,

Campereando, aparece,

Aqui ou ali, uma bicheira.

 

Não há motivo pra susto,

É o trabalho da mosca no verão,

Se o estado do bicho é robusto

Basta encostar pro mangueirão.

 

Normalmente, quando reunidas, as vacas teimam até alinhar. Dispara pra um lado, teima pro outro, é natural que o animal criado em manada não queira desgarrar-se do lote, certeza de proteção ao menor sinal de perigo. No entanto, o costume da lida traz a mansidão já citada, e a vaca velha desceu a galope pro lado da rede com o terneiro logo atrás, manquejando no lado da bicheira.

Foi muito bem até perto de uma lagoa, quando resolveu voltar. Não sei se esqueceu a bolsa, o celular ou a chave de casa, mas o fato é que a barrosa deu a volta na lagoa e desembestou pro lado do cocho outra vez, estando a cinquenta metros da saída da invernada. Nesse momento, olhei para meus pés numa fração de segundo e percebi que calçava tamancos. Devido ao calor, optei por deixar as botas em casa e, consequentemente, as esporas.

 

Havia um terneiro fumaço

Sangrando à volta da paleta

Destes que não conhece o laço

Mas aprende na força da roseta.

 

E a mãe, uma aspuda barrosa,

Quis remanchar do carreiro

Correu de volta, teimosa,

Seguida pelo terneiro.

 

Mesmo sem aparatos, carquei a égua Ruana de um só cutuco em cima da rês, que ventena comigo não tem muita chance. A vaca velha era mansa, mas sabia correr! Foi só ao estalo do relho e à base de grito que ataquei do lado de um banhado, trancando a passagem e iniciando a perseguição.

O brabo é que, no caso de vaca de cria, corre a mãe pra um lado e o filho pro outro. Essa é a hora em que o taura tem duas escolhas: ou se resigna e deixa voltar pro lote, ou se indigna e divide o matungo em dois, dê-lhe bufo, dê-lhe laço, fazendo brotar o suor, mas efetivando o aparte.

 

É na firmeza do casco

Pisando firme a macega

Que o boi renega o pasto

E de vereda se entrega

 

No estalido do relho

Virou-se rumo à mangueira

Amadrinhando parelho

Pra curar a tal bicheira

 

Vencida a carreira, já brotando o suor no pescoço, retomei o trote sereno levando por diante os danados. Chegando na mangueira, o ritual é simples e sistemático: derruba, passa a corda nas patas e imobiliza a criação, de modo que o curativo fique a preceito.

Diria, aliás, que a riqueza da lida de campo é justamente a rusticidade do manejo. Cheiro de campo, de pêlo e bufo de ventana, confundindo o gaúcho com o cavalo, sem saber direito quem é quem na figura centaura que sobe e desce coxilhas cuidando o gado como tem que ser.

 

Bufou, laçado ao pescoço

A corda esticada no chão

Curava, sem alvoroço,

Bem conforme a tradição

 

No largar, ainda tonto

Saiu procurando o teto

Pisando firme, mas pronto

Jogando longe o graveto

 

Pra quem conhece o verão

Se é do campo, não se apura,

Pois, da macega ao galpão,

Conhece os caminhos da cura